segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Sacerdotiza


Eu sou isso, e mais todas as outras verdades sobre mim. Mas nenhuma daquelas me torna menos o que realmente sou, e nenhuma delas me leva para outro ponto se não este onde estou: meu desejo de descer as escadas está maior que de tomar banho; mas paro no segundo degrau, e sou capaz de me lavar aqui mesmo. E então volto, suavemente para o degrau anterior, não por medo, mas para aproveitar cada milésimo de segundo em que meu pé esquerdo toca o terceiro degrau e eu não perca nenhum sentimento que exista nesse mini movimento que me provê o mundo.

Tenho zilhões de sentidos e sentimentos, e me dói a solidão a que me entreguei pela paixão. Hoje sou mais o meu eu, não sei se melhor, ainda, cada vez mais difícil, o tempo passando e nada resolvendo, tudo que eu quis era o que um pouco mais de tempo, um pouco mais de espaço, mas eu escolhi caminhos e agora os caminhos me escolhem, e pra variar eu não sou nada, não faço nada, deixo as coisas acontecerem, independente do que eu fui ou do que eu sou, não quero nada que já não seja, não desejo nada que já não tenho,

E, no entanto, sou ambiciosa e desejo o mundo, para mim, para os outros, de outra forma, de outro jeito, vejo os erros e dos erros aprendo verdades e enuncio-as mesmo sabendo que jamais terei-as verdadeiramente em minhas mãos, mas ainda assim a minha pretensão me vence e viro esta pessoinha que eu nunca quis ser e que tanto critiquei.

Meu desejo é sair dessa circunstância, eu sinto meu futuro ao toque de meus dedos, alias eu poderia estar no meu futuro agora, aquele que eu queria desde criança, que sonhei e nutri secretamente debaixo da coberta da minha cama, mas eu Cresci. Eu Cresci e agora não cabe a minha rebeldia infantil; eu cresci e agora a minha voz é grave demais para os agudos gritinhos de não quero; eu cresci e tenho que cumprir tudo que escolhi, as mesmas escolhas, as minhas, induzidas pela vontade de me tornar alguém para outra pessoa que não, afinal eu já era eu quando eu mesma decidi debaixo da coberta o que eu queria ser. Mas aquilo não era real, nem palpável.

Agora é.

Agora é e eu senti medo, e eu senti frescura, e eu me senti despreparada, e infantil, e pretensiosa e ridícula por saber que eu era capaz de fazer de verdade aquilo que o meu futuro queria.

Mas agora não é mais eu que quero. Não sou eu quem decide ou escolhe, já fui escolhida. Me tocaram: não é o toque divino, mas é como se fosse; sou eu quem encontro o tempo e o espaço, mas não sou eu quem decido; é através das minhas mãos, e da minha mente e do meu corpo e do meu sentimento que brotam essas coisas, mas ainda assim não estão sob controle de mim mesma: eles vêem, e o meu poder é encontrar o espaço para que saiam, e deixar sair.

Estavam aqui, tudo lá dentro, em um fundo de poço ou de baú, bem velho, empoeirado, um lugar profundo de quase profano. Eu, adestrada como um leão de circo, sentada sobre a porta que abre para o alçapão, eu mesma, guardiã de mim e de meus segredos, sentava-me com o calhamaço de chaves e adormecia, fazendo meu trabalho conforme me ensinaram.

E agora, duvidando e ao mesmo tempo provando que de fato aprendi a lição, agora eis-me aqui, em pé com as chaves da porta, o alçapão aberto, uma longa escada escura e sombria desce para uma penumbra que se ilumina por uma vela que no final, num ponto onde não vejo, deve estar a chamuscar. Não vejo direito, e não sei se são os meus olhos que não enxergam ou se a escada é que não se deixa ver – é essa a mágica; é dentro de mim ou é na escada? Essa escada faz de fato parte da realidade, ou está ela também dentro do meu olho que agora observa uma parede branca de tão sem graça, que para espantar o tédio de sentar-me sobre uma porta que não sei para onde me fez criar um mundo magnífico de velas e sombras?

Até onde sou capaz de ver, e até onde o meu ver é de fato capaz? O que me torno, à medida que escolho encontrar-me em outra casa, e me deixo deitar por outra pessoa, e em seguida me levanto e fujo, como quem foge da própria sombra que aprisiona meus movimentos, que são seguidos e refeitos em perfeição e fidelidade que quase suspeito que não sou eu quem executa? De quem é o poder de escolha, e qual é A escolha? Do que estou querendo e fazendo, do que sou de fato capaz de?

Abrir a porta do alçapão, com o molho de chaves na mão, vestida com minha roupa, simples e não simples: despretenciosamente arrumada, como quem escova os cabelos para ficar em casa – essa sou eu no espelho, apenas eu, não me arrumei para festa nem cerimônia; eu já tava ali, assim, eu mesma, de sempre e de rua, e de repente eu já não era quem eu sou.

Mas o que eu era antes? Estava eu sentindo de fato alguma coisa sensata, eu queria de fato estar ali? E a pulga que me mordia as orelhas, ela não conta, aquela pulga do meu gato, que de tanta solidão e medo dorme ao meu lado no vazio da solidão, ela não conta? E os segredos que não contamos para nós mesmas, e os acontecimentos que se passam só do lado de dentro do olho, e só quem é capaz de ver são as retinas fixadas atrás deles? Se ninguém viu, eles não existem?

A porta aberta, o ponto sem volta, the point of no return. E agora para onde segue, adentrar a luminescência decadente de poeira e velas, que muito provavelmente me sufocarão de tanta ancianidade? Serei eu responsável por tudo que me acontece, terei eu consciência e proficiência para aceitar meu erro que me acerta, e acertar no acerto que me erra, aquilo que de tanto tempo guardado juntou poeira e queimou todas as lâmpadas e me deixa cada vez menos digna porque escondida?

De onde posso falar, se é que minha voz ainda existe? Será que alguém ouve alguma coisa dessas profundezas, tem alguém me vendo ainda? E quem me vê, vê o que, me vê louca hipnotizada Perséfone?

E quem me vê me trará chocolates, e queijos, ovo e batata para que eu não morra de fome? Eu escolhi morrer, e comigo morre uma parte que era um eu, mas não era o eu que escolhi, era o eu que me fizeram ser, onde eu era, por vontade própria, aquilo que se deve ser, e olhando pelo espelho vi claramente que estava me tornando aquilo que não era.

Morre comigo eu mesma, a minha tristeza e a minha solidão, por outras duas ainda maiores, e mais densas, e talvez menos confusas, mas muito mais empoeiradas e metidas a maduras. A minha maturidade não está comigo nem depende de mim: ela está no de fora, no que me dizem e me vêem, no que me acertam e no que eu acerto. Mas por enquanto erro,

Erro,

e nos meus erros, moram as minhas vontades, meus desejos infantis de tão puros e simples, que não conjuram com aqueles e aquelas que apesar de seus sentimentos, não superam a mim.

Eu sou infeliz, e sou desgostosa. A parte isso, sinto em mim a alegria serena de uma criança pulando e gritando saltando degrau por degrau em direção ao mistério e à indigna verdade sobre a vida.

sábado, 31 de janeiro de 2009

As certezas sem dúvidas.

Desejava sentir sua respiração, era apenas isso. Um sentido para aquela quantidade de ar que era obrigada a inspirar. Em sua busca, enlouqueceu com a quantidade de sentidos ignóbeis que encontrou.

Sentiu intensamente verdades em seu peito, verdades não faziam parte de sua realidade. Sentiu, sorriu e gozou.

Da loucura, pôs-se de cabeça para baixo e observou todas as peças do quebra cabeça pelo lado do avesso. Não via o desenho, mas via os encaixes. Tornou-se estrategista. Por intuição. Confiou no que sentia, e agiu.

Foi quando seus sentidos a traíram.

A sua imaginação era forte, e a criação era real. Como tudo que é mágico, encantador e artístico.

Não tão real quanto a velha materialidade. Alem do velho e fraco portal, por onde escapam aos corajosos que covardemente não vivem na matriz, pouca coisa havia. Seria necessário construir, renovar e mergulhar.

E não seria impossível, se não fosse traída. Traída por seu peito, por sua própria ilusão. Ela até seria capaz de matar-se, mas não o fez enquanto havia tempo. Sentada, viu o portal fechar-se. Sentiu um vazio invadir a alma, e o amargo gosto da ilusão. Desejou não sentir sua respiração mais uma vez e lembrou-se de que ao menos isso era capaz de fazer.

Incompleta. Eternamente vazia. Sorriu por não ser feliz. E seguiu, séria, cética e mais uma vez, certa de que não consegue errar, mesmo com muito esforço. E pela primeira vez percebeu que um erro pode ser pior que aceitar a certeza diariamente.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Grandes pensamentos...


QUANDO VOCÊ PENSA QUE SABE TODAS AS RESPOSTAS, VEM A VIDA E MUDA TODAS AS PERGUNTAS (Veríssimo)


NÃO EXISTE SAUDADE MAIS CORTANTE QUE A DE UM GRANDE AMOR AUSENTE (Zé Ramalho)

NINGUÉM NESSE MUNDO É FELIZ TENDO AMADO UMA VEZ. (Raulzito)


Quanta infelicidade ainda é preciso para se aprender a viver??
Eu só queria um pouco de sabedoria para encontrar paz.
Acho que estou triste. Mas só por hoje nao vou me machucar.


Fortaleza

Maíra Baky


Sobre todas as coisas. Sobre se envolver. Sobre gostarem de você. Sobre gostar de alguém.

Sobre o desejo. Sobre a solidão. Sobre ser correspondido. Sobre ser rejeitado. Ficar esperando. Solidão.

Bate, não volta.

Volta e bate de novo. Quando você está forte, te derruba.

E quando você está de pé e quando você está sentado.

E quando você acha que tudo pode. E quando você é rejeitado.

E quando você quer porque quer.

Não tem jeito, sofre.

Isso porque são todas as coisas.

Coisa nenhuma e coisa toda. Bagunça. Frenesi.

Sentir é querer; querer não é poder.

Ser feliz é uma coisa; estar feliz é outra.

E quando eu penso que posso é quando mais eu tenho medo.

De não poder, de perder, não viver.

E quando eu caio e choro e levanto é quando mais eu penso.

E quando eu reflito, me aflijo e resolvo. Elucido.

Eu sou eu de novo, mais forte, melhor.

Porque o que não me mata me fortalece.

Como todas as coisas.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Intensidade e Durabilidade

Nada pode ser intenso a ponto de durar. Ou a intensidade se espalha por espaço-tempo continuo, ou a intensidade suga, devora e se esgota num piscar de olhos.

O pior de todas as escolhas é ter que decidir a curto e longo prazo. Pela sociedade de consumo somos educados para esgotar todas as possibilidades no menor tempo possível. A boa educação diz que devemos dar lugar para o amadurecimento, para aquilo que é seguro, tranqüilo e sereno, a ponto de confortar-nos velhice a dentro. E a filosofia da felicidade recomenda: carpe diem, aproveite o dia!

Sempre ancorei-me na segurança perene, aquela que me conforta e me aquece nas noites de chuva. Pude desfrutar de muitas conquistas com a consciência de que tudo estaria bem, uma vez que eu me dedicasse aos poucos. Como o velho ditado diz de grão em grão a galinha enche o papo, e uma longa caminhada começa com um único passo.

Mas o mais estranho de tudo é sentir-se desconfortável com o conforto, e desejar a instabilidade e o desapego. Sabendo que nada pode acabar bem, que nada vai ser como antes e nada que eu faça vai tornar a minha vida mais doce do que já foi, eu posso me ver envelhecer, sozinha, sôfrega e abandonada por tudo e todos aqueles que eu amei.

Hoje eu queria arriscar, e já não posso. Hoje eu queria o colo da minha mãe, mas já é tarde. Envelhecer significa ser capaz de dar conta de si mesma. Custe o que custar, ninguém mais pode ser responsável por mim além de mim mesma.

É muito bom me encontrar nesse momento. Tanto tempo perdida e vagando sozinha pelas trilhas sem direção. Estar comigo mesma é poder contar comigo, mesmo sabendo que tudo pode dar errado e que mesmo que eu faça uma enorme burrada, ainda terei eu ao meu lado.

Ter que decidir por uma coisa ou outra significa ser capaz de abrir mão e apostar alto. Não sei prever o futuro, mas posso ver que a minha conta chegará, porque tudo tarda, mas não falha.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A loucura e o portal²

Desgastada pela dureza das palavras e da beleza, deixou de sorrir. Encontrou-se com a faca na cozinha, mas foi incapaz de se punir. À beira do abismo decidiu que não havia mais nada a perder. Antes de morrer, decidiu deixar-se enlouquecer.

Fugiu de sua vida para outra, e supôs-se esquizofrenicamente felina. Levava ainda sua velha rotina durante o dia, e encontrava outra parta à noite.

Mergulhada nas profundezas da noite encontrou a inspiração. E tal como Perséfone não pode mais fugir de sua prisão. O roçar das cordas excitava-a. Valendo-se do pouco pudor que ainda tinha, despiu-se e tomou toda a vergonha do mundo para si.

Não podia mentir nem chorar, mas sofria. Era incapaz de escolher ou mandar, e embora petrificada, não parava em um só lugar.

Foi quando os portais se abriram e a realidade deixou de existir. Não queria mais saber de verdades nem desejos que não pudesse sentir. Quis morrer mais de uma vez mas o destino não quis. Por sorte ainda teria 7 vidas. Não queixou-se mais das luzes, e sem paz, se deixou viver.

O portal.

Acostumados aos previsíveis finais não-felizes, desejaram novos começos. Iniciaram-se em práticas tântricas, mas não encontrando sentido naquilo, escolheram o teatro.

Perdidos em tempo e espaço, encontraram-se os dois infelizes em uma dimensão paralela. Pouco à vontade, apresentou-se apressado, e ela achou graça de tal intromissão. Sentindo-se julgado e irritado, desistiu. E ela sussegou.

Encontraram-se afinal, no lugar esperado e perceberam que da realidade nada extrairiam. Calaram-se por alguns eternos minutos, e sondaram outras dimensões.

Surpreendentemente, o minúsculo mundo do qual faziam parte girou, e os copos e cigarros tornaram-se comuns. Embriagados de verdades e piadas, enxergaram algo além daquele espaço, e sorriram. Não sabiam bem ao certo sobre qual opinião discordavam, mas perceberam-se novamente atravessando o velho portal.

Aproveitaram que ninguém estava vendo e fugiram, mas a realidade tornou impossível. Encontraram juntos algo inominavelmente bom, e confortados, não viram (ou fingiram não vir) as saídas esgotarem-se.

Deixaram-se levar pelo mais precioso tempo de que dispuseram, e desejaram nunca mais sair. Estavam felizes afinal, e uma busca cessara enfim.

Mas ainda juntos, desconfiaram do tempo e do final infeliz que se apresentava com freqüência. Tentaram correr e espernear, mas o portal se fechara. Não havia mais saídas, e a entrega tornou-se obrigatória para pessoas que odeiam obrigações. Mas nada pode ser tão ruim quanto não ter alternativa de final feliz.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Meninos...

A injustificada severidade não produzia o efeito desejado. Passava noites sonhando acordado, e ainda assim, levantava-se cedo todas as manhãs. Um dia entendeu que precisava cuidar-se mais, e dedicar-se mais, embora não soubesse exatamente a quê. E correu atrás de um único objetivo que o conduziria a um futuro interessante.

Mas mesmo assim o vazio existencial tomava-lhe o corpo, especialmente quando encontrava-se com seus pensamentos na porta da geladeira. Tentava distrair-se com filmes de luta e jogos de computador. Mas nunca supriu o grande vazio, que com a idade passou a aumentar.

Pensava em sexo, e também observava os gatos. Queria encontrar algo que realmente valesse esta vida, mas enquanto não dava certo, ria.

E do riso partia o choro, e as lágrimas só escorriam pela parte de dentro. É que não podia perder o seu ponto de vista privilegiado depois de tanto trabalho, e olhos marejados certamente não seria a saída para a sua solidão.

Abriu então espaço para outras realidades, e apaixonou-se pela possibilidade de sentir. Não estava morto, afinal.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Agora Só Falta Você

Um belo dia resolvi mudar
E fazer tudo o que eu queria fazer
Me libertei daquela vida vulgar
Que eu levava estando junto à você
E em tudo o que eu faço
Existe um porquê
Eu sei que eu nasci
Sei que eu nasci pra saber
Pra saber o quê?

E fui andando sem pensar em mudar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu
No ar que eu respiro
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou

Agora só falta você

As verdades...

A serenidade que procurava não estava nos livros. Mas ainda assim lia-os com ansiedade. Precisava ouvir em sua mente palavras honestas de alguém que dialogasse com sua alma. Mesmo que o autor daquelas palavras não falasse realmente a verdade, insistia em tomá-las como verídicas.

Precisava de um calento para acalmar sua alma inquieta. E não encontrava. E isso alimentava ainda mais a sua busca, intermitente, nos confins dos espaço-tempo distantes daquele agora em que vivia.

Mas nada encontrava alem de boas teorias. Que na pratica diziam muito pouco, mas que ressoavam em sua mente antes de dormir. E conseguia encontrar o sono enfim, mesmo com algum sofrimento.

Um sopro de vida Lispectoresca

A palpitação secular que ressoa da cavidade torácica do meu peito deve ter algum motivo existencial comum aos outros seres. Nada pode ser tão fugaz e intenso ao mesmo tempo. Nada pode ter uma significância única, e apenas os poetas sejam capazes de explicar isso.

Eu queria poder morrer e viver várias vezes. Cada uma das vidas eu teria uma escolha, e ser sim e ser não a cada vez seria momentos de entrega sem hesitação.

A hesitação é o estado limitante do pensamento sobre o sentimento de ação e verdade. Mas se a verdade não existe realmente, então de que serve o questionamento?

Quem me dera sentir sem pensar, quem me dera nascer sem palavras. Quem me dera não aprender a ler e a distinguir o certo do errado, e poder existir sem força, porque viver já dá trabalho o bastante.

Quando diz-se que queremos sentir a vida palpitante, e sorridente nos lançamos ao ardente fogo da emoção, estamos sendo verdadeiros ou apenas inconseqüentes? Então a verdade não escolhe o quem vem depois e simplesmente decide por você o que vai acontecer? E onde fica o livre arbítrio? Ou isso foi uma invenção católica para que controlemos os nossos sentimentos?

(pausa para reflexão)

Quem encontrar a resposta que escreva primeiro.

domingo, 9 de novembro de 2008

História da paixão inacabada

Encontraram-se à toa, como quem cruza a rua. Ela o viu primeiro. Ele estava absorto em seu furacão de plásticos e pensamentos. Em suas loucas divagações, era comum ser observado – gostava disso. Nestes momentos falava mais alto, aparentando loucura e afastando os mais medrosos. Mas não conseguiu afastá-la: ela interessou-se ainda mais.

Tentava distinguir entre movimentos e resmungos algum sentido naquilo tudo. E a afetação desprovida de qualquer intenção encantou-a. Olhou com intensidade os cabelos e o nariz.

Ele percebeu que ela se aproximava. Era bonita, de fato, e parecia interessada. Tentou conversar, falaram-se afinal. Mas as palavras não disseram nada. Pertenciam a mundos distantes, e encantavam-se, às suas maneiras, com o mistério do outro. Sorriram. E tocaram-se. Descobriram e possuíram, em seus mundos, o deslocamento das fronteiras.

Ela era ligeira, e, com sensualidade abraçava o mundo. Isto lhe trouxe segurança. Embora às vezes aparentasse ser inconseqüente, ela não era realmente. E ele a admirava por isso – ele nunca tinha nada a perder.

Mas os homens fumantes, naturalmente, têm menos fôlego. E voltou à sua busca infinita por sentidos que nunca se prenderia. E ela tornou o seu amor platônico. Desejava muito, e sentia-se manipulada. A tristeza de uma solidão não compartilhada devorou seu amor. Abandonou-se à beira de um abismo por eternos segundos. E em sua queda vertiginosa, abriu os olhos.

E então... desejou desejar menos Sua paixonite cega se tornou míope, e foi capaz de perceber algumas nuances de perto. Ele não era tão crível assim. Tinha manias e medos insuportáveis e provavelmente jamais teria algo no que se segurar na vida. Com algum sofrimento sorriu e percebeu que não seria mais feliz ao lado dele, não mais do que já tinha sido.

Ele, das conversas, nada extraíra e percebeu que a beleza ocultava uma pessoa obsessiva, cheia de opiniões e histórias que jamais condiziria com a forma simples com que justificava sua vida. E sorriu por não ter que pedi-la em casamento. 

Ela mergulhou-se em seu amor próprio e ainda assistiu com algum ressentimento, o mesmo espetáculo do homem, agora para outras. Mas a esfinge estava decifrada, então dispôs-se a conversar com outras pessoas menos previsíveis. E de onde não esperava nada, eis que surge algo realmente mais interessante: da previsibilidade a surpresa aparece! O seu desamado sofre, e empilhando pratos sobre a cabeça não suporta a redefinição de fronteiras que antes havia deslocado. Não podia mijar no seu pé, mas tentou derramar cerveja. Enciumado tentou de todas as formas resgatar o seu espaço, mas era tarde. E ela, secretamente gozou com uma vingança não programada, mas tão doce quanto a o primeiro beijo de uma paixão perturbada. Era ela a mais estruturada, afinal.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Ela.

Nunca se dera conta de sua existência. Simplesmente vivia. Sua inocência fora roubada, e desde então, convivia com a simples e árdua tarefa de dissociar seus sentimentos da ordem prática da vida. Queria ir além, mas aprendera a se limitar. Permitia que se aproximassem, gostava de carinhos, mesmo que eróticos. Mas não admitia se entregar. Amar era demais para si. Não se sentia merecedora de amor. Ou nunca encontrara realmente o significado da palavra.

Não conseguia ir além de seus passos. Mas sua mente alcançava céus e infernos inimaginados. O tempo era relativo, e a sua experiência também. Tinha apenas uns vinte e poucos anos - e, no entanto, o que lhe restava ainda para viver?

Queria paz, mas em tempos de morte e tráfico, esta palavra era proibida. Então: fumava.

E sua fumaça entrelaçava os cachos que moviam seus pensamentos. Certamente tinha uma inteligência inigualável – mas nem mesmo ela admitia isso. Acreditava estar a frente de seu tempo. Mas como, se ainda não aprendera a amar?

Cruzou com um rapaz interessante. Tomou-o para si. Fez de tudo que pode e enlaçou-o entre suas pernas, bem debaixo de suas asas. E construiu sob o ninho um enorme castelo de cartas por cima de sua nuvem de idéias.

Mas ela tinha uma história! E não conseguia deixar de vivê-la. Queria mais, um furacão turbinado moia um motor a sopro dentro do peito. Queria mais, queria sentir-se bem, queria prazer, plenitude. Mas fazia-se em pedaços, e em cada parte de si mesma largava a fúria de uma vida indigesta.

Queria liberdade, mas a liberdade era frouxa demais para alguém que não tinha nada. Tinha medo de morrer, e de gostar. Então, sofria.

domingo, 12 de outubro de 2008

Palavras sinceras...

A intensidade da sua paixão corroia suas vísceras. Desejava mais que tudo a liberdade, ainda que suas apostas fossem maiores que pudesse pagar. Desejava coragem para uma renúncia súbita; mas não era dela que dependia os altos valores; era preciso mais que borboletas no estômago.

E não conseguia se conter. Embarcou fundo, precisava mais, o tempo inteiro. Sua imaginação não largava a ilusória paixão, e tolamente se encontrava com ele lavando a louça e escorrendo macarrão. Ou na paisagem da janela do ônibus.

Mais uma vez mais o destino pregava-lhe uma peça. Era um teste de resistência, consistência e profundidade. Precisava se concentrar, não podia lhe faltar ar.

Talvez ela não quisesse mais provar que estava certa, até porque não estava. Deixava-se levar por curiosidades e angustiantes dúvidas existenciais.

Tinha compromissos, ela sabia. E tinha consigo mesma estabelecido o acordo de nunca mais passar fome. De nada. As feridas estavam abertas, e ela não podia contê-las. Era tempo de cicatrizá-las.

Enfiou a mão dentro da bolsa. Tocou várias, mas não agarrou nenhuma delas. Queria a sua caneta, aquela que se adaptava aos seus calos, a única que era capaz de desenhar o exato suspirp da alma. A que escrevia as verdades.

Haverá um tempo em que papel e letra serão obsoletos, pensou. Mas mesmo nesta época, seu caderno estaria do seu lado, pois somente com ele seria capaz de desafogar a alma embebida.

E escreveu. Escreveu suas mágoas, seus desejos, seus ideais. Os mais pérfidos, os mais obscuros. Libertou sua alma de toda excitação, de toda incerteza e de toda agonia. Sua solidão doeu, e lágrimas romperam finalmente com sua angústia. A pessoa ao seu lado incomodou-se com seu choro. Mas não agiu. Ela também estava contida pelas emoções que não podia expressar.

Então fechou seu caderno, enxugou as lágrimas, e deu sinal para descer. Já era outra pessoa, confiante, feliz. Esquecera seu universo infinito de iceberg e voltou para a realidade.

Para seu consolo, sempre haveriam palavras que não precisariam ser lidas. Bastaria que fossem pensadas, anotadas. São aos casulos das borboletas do estômago – precisam ser rompidos para libertar a essência.

(des) AMANDO

A covardia é a pior forma de cretinice que existe. Mas tudo bem, porque como eu sou feliz por dentro, não me incomodo com os defeitos dos outros. Tenho os meus também.

Um dos meus piores defeitos é estar certa. Odeio quando estou certa. Eu vejo as pessoas, fazendo, falando, amando. E eu, comigo mesma, duvido. Digo essa pessoa não vai até o final. E não vai. E a minha outra eu, que queria tanto que eu mesma estivesse errada fica olhando, querendo colocar o dedo na boca, ou ganhar um afago, pode ser abraço ou cafuné. Mas não tem jeito nêga, não da pra confiar.

Eu amo algumas pessoas. E na maioria das vezes, sou amada também. Cada um tem seu jeito de amar, é preciso deixar que se seja amada. Mas as pessoas não sabem lidar com sentimentos puros, as pessoas não sabem nada sobre amor. O amor é um sentimento puro demais, a poluição da cidade ofusca seu brilho.

Então àquilo que a minha outra eu diz isto não é recíproco, a minha heterônima do dedo na boca responde: é preciso amar as pessoas como elas são... e elas amarão às suas maneiras tortas e confusas.

Mas não contenho meu desapego. Infelizmente sou mortal. Pra que tanta desconfiança, pra que tanta torteira? Por que as pessoas não se juntam, não se amam, e pronto, todos seremos felizes para sempre?

Minhas três de mim queriam se juntar, queria a companhia dos meus amados... queriam estar erradas e não desconfiar.... queriam um abraço, uma conversa... mas mesmo as pessoas da sala de estar não sabem amar...

Então... brota os opostos do amor. Endureço, esqueço finjo que não percebi, dou aula de amor ou lamento a minha dor. Onde fica o meu euzinho desamado, guardo na gaveta ou tiro do armário?

domingo, 5 de outubro de 2008

Andança

Você nunca vai encontrar alguém mais perfeito para você na sua vida. E se isso for verdade, até onde posso ir, e quais serão exatamente as escolhas e as renúncias que farei a mim mesma como prêmio da nossa ilustre combinação?

instantes-já que Lispector pronuncia de maneira formidável – e pouco importa o futuro, porque cada segundo é o futuro acontecendo e imediatamente tornando-se passado. Mas pouco me importa o tempo.

Mesmo que nos conheçamos hoje ou daqui a dez anos, ou conforme dizem, há mais de dez, isto não implica em nada mais do que o grau de lembrança que temos um do outro. Afinal, a intimidade nunca mudou e sempre foi assim.

Mas daqui para frente, que sei que você existe e você sabe que estamos bem, e ainda assim me liga e me ama gritando, e ainda revoltada eu volto e te amo, e ainda assim, queremos mais, queremos um mundo, mas onde está o mundo além de aqui com você dentro de mim?

Quero um jardim de acácias, mesmo que ainda não associe o nome à folha, ainda assim quero. Quero uma tela, quero uma música, quero dormir, acordar, respirar. Quero. E sei que dos meus queros, alguns você quer também, mas sei que existem outros tantos queros que você quer, que se somamos cada um dos queremos podemos chegar ao infinito. Como ir ao infinito sem tirar os pés do chão?

A existência não existe realmente, mas pelo menos duas ou três vezes no dia não consigo continuar a fazer sem botar algo na boca. O ar é de graça, mas a comida não é não. Mas a gente não quer só comida...

Quero muito e de todas as quereções, o que eu nunca senti com tanta intensidade foi querer mais ainda querer. E sei que ficamos bem assim.

Mas isso não é motivo. Isso ainda não é condição. Precisamos urgentemente mais e mais e melhor e mais rápido.
E, pra variar, no estilo tudo-ao-mesmo-tempo-e-quanto-mais-intenso-melhor. Amo-te mais do que poderia, mas a liberdade sôfrega, testo-a com intensidade. “Sou heróicamente livre”.

Lispector me entenderia...

Desde já é futuro, e qualquer hora é hora marcada. Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com a matéria prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo. Parece com momentos que tive contigo, quando te amava, além dos quais não pude ir, pois fui ao fundo dos momentos. É um estado de contato com a energia circundante e estremeço.

Uma espécie de doida, doida harmonia. Sei que meu olhar deve ser o de uma pessoa primitiva que se entrega toda ao mundo, primitiva como os deuses que só admitem vastamente o bem e o mal e não querem conhecer o bem enovelado como em cabelos no mal, mal que é o bom.

Água Viva, de Clarice Lispector.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Encontrando-se

Suspiro.

Sua musa inspirou-lhe o caminho de sua vida. Queria mais, queria tudo. Precisava sentir-se viva, e para isto devia libertar-se de todo o resto. Todas as paixões mal resolvidas, as disputas, os rancores.

Se entregou. Começou lendo um romance. Em seguida, foi ao teatro. E então se perdeu pelas galerias dos museus e suas cafeterias ao final da tarde.

Foi então que, desacompanhada, se apaixonou. Seguindo seus impulsos não mais contidos, ela se deixou levar por tudo aquilo que mais repulsava de si mesma.

E já não sabia mais o que pensar. Temia as decisões. Antes mesmo era indecisa, sempre penava pelas escolhas – afinal, uma escolha é sempre uma rejeição. Nunca abriu mão de nada. Preferia que as coisas abrissem mão dela.

E então ele apaixonou-se por ela novamente. Era desta mulher que gostara no primeiro dia, tantos anos atrás. Por onde andara? Por que sumira por tanto tempo?

Em sua confusão não podia conter o desejo de desejo, e a paixão que lhe pulsava no peito. Ainda não sabia exatamente o que fazer, mas sabia que a vida tomaria rumos, querendo ou não. Mas, de tantas escolhas, preferiu não se definir. Definir seria limitado demais para seu estado de alma expansivo.

Secretamente desejou não ter nenhum compromisso. E assumiu consigo mesma o dever de sentir-se bem e feliz sempre, apesar de tudo.

Voltou a sonhar. E em seu sonho, todas as suas paixões se reuniam, num transe hipnoticamente orgasmático. Não queria o fim, a não ser que fosse precedido do êxtase. E este ainda não havia sido alcançado.

Na verdade, o gozo não era mais seu objetivo, mas o processo que a conduzia a ele. E agora, encontrado o caminho, não quis jamais deixar de caminhar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

São tantas questões...

Maíra Baky


São tantas questões que me tento

Procuro, anseio, e um pouco me leio

Um pouco me guio, um pouco tormento

São tantas questões, são tantos os eixos

Um dia arrisco, outro devaneio


São tantos os lados, dodecaedros

Me abate o cansaço, fujo das regras

Me alvoroçam amargos, doentes e retos

Poucos casos abalam, poucos se casam

Quase inexiste, coexiste, convergem


São tantos problemas, aflições

Tantas doenças, inaptidões

Vazios enchidos a amargas ilusões

Decisões invertidas, coerções

São tantos livros, tantas historias

Quase não oiço, são muitas as glórias

(me falta memoria)


Me fico acoada, toca e mordaça

Quase nada me açoita a graça

São tantas as vidas, tantas canções

Não toco feridas, não canto nações

São tantos os moços, os louros, os brados

Me faltam abraços, falta emoções

São tantos os medos, espantos e gostos

Não me atenho, solto balões

Vão-se com o vento todas as unções


São tantas as vidas, os sofrimentos

Há tão pouco agora as matas e os sons

Me atenho às folhas e as formigas

Estudo a graça das pequenas feridas

Uma cria descomparsa, hoje se caça

Já foi louvada, hoje se apaga.

Fotografia

Cecília Meireles

DESEJO UMA FOTOGRAFIA
Como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.