domingo, 4 de janeiro de 2009

O portal.

Acostumados aos previsíveis finais não-felizes, desejaram novos começos. Iniciaram-se em práticas tântricas, mas não encontrando sentido naquilo, escolheram o teatro.

Perdidos em tempo e espaço, encontraram-se os dois infelizes em uma dimensão paralela. Pouco à vontade, apresentou-se apressado, e ela achou graça de tal intromissão. Sentindo-se julgado e irritado, desistiu. E ela sussegou.

Encontraram-se afinal, no lugar esperado e perceberam que da realidade nada extrairiam. Calaram-se por alguns eternos minutos, e sondaram outras dimensões.

Surpreendentemente, o minúsculo mundo do qual faziam parte girou, e os copos e cigarros tornaram-se comuns. Embriagados de verdades e piadas, enxergaram algo além daquele espaço, e sorriram. Não sabiam bem ao certo sobre qual opinião discordavam, mas perceberam-se novamente atravessando o velho portal.

Aproveitaram que ninguém estava vendo e fugiram, mas a realidade tornou impossível. Encontraram juntos algo inominavelmente bom, e confortados, não viram (ou fingiram não vir) as saídas esgotarem-se.

Deixaram-se levar pelo mais precioso tempo de que dispuseram, e desejaram nunca mais sair. Estavam felizes afinal, e uma busca cessara enfim.

Mas ainda juntos, desconfiaram do tempo e do final infeliz que se apresentava com freqüência. Tentaram correr e espernear, mas o portal se fechara. Não havia mais saídas, e a entrega tornou-se obrigatória para pessoas que odeiam obrigações. Mas nada pode ser tão ruim quanto não ter alternativa de final feliz.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Meninos...

A injustificada severidade não produzia o efeito desejado. Passava noites sonhando acordado, e ainda assim, levantava-se cedo todas as manhãs. Um dia entendeu que precisava cuidar-se mais, e dedicar-se mais, embora não soubesse exatamente a quê. E correu atrás de um único objetivo que o conduziria a um futuro interessante.

Mas mesmo assim o vazio existencial tomava-lhe o corpo, especialmente quando encontrava-se com seus pensamentos na porta da geladeira. Tentava distrair-se com filmes de luta e jogos de computador. Mas nunca supriu o grande vazio, que com a idade passou a aumentar.

Pensava em sexo, e também observava os gatos. Queria encontrar algo que realmente valesse esta vida, mas enquanto não dava certo, ria.

E do riso partia o choro, e as lágrimas só escorriam pela parte de dentro. É que não podia perder o seu ponto de vista privilegiado depois de tanto trabalho, e olhos marejados certamente não seria a saída para a sua solidão.

Abriu então espaço para outras realidades, e apaixonou-se pela possibilidade de sentir. Não estava morto, afinal.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Agora Só Falta Você

Um belo dia resolvi mudar
E fazer tudo o que eu queria fazer
Me libertei daquela vida vulgar
Que eu levava estando junto à você
E em tudo o que eu faço
Existe um porquê
Eu sei que eu nasci
Sei que eu nasci pra saber
Pra saber o quê?

E fui andando sem pensar em mudar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu
No ar que eu respiro
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou

Agora só falta você

As verdades...

A serenidade que procurava não estava nos livros. Mas ainda assim lia-os com ansiedade. Precisava ouvir em sua mente palavras honestas de alguém que dialogasse com sua alma. Mesmo que o autor daquelas palavras não falasse realmente a verdade, insistia em tomá-las como verídicas.

Precisava de um calento para acalmar sua alma inquieta. E não encontrava. E isso alimentava ainda mais a sua busca, intermitente, nos confins dos espaço-tempo distantes daquele agora em que vivia.

Mas nada encontrava alem de boas teorias. Que na pratica diziam muito pouco, mas que ressoavam em sua mente antes de dormir. E conseguia encontrar o sono enfim, mesmo com algum sofrimento.

Um sopro de vida Lispectoresca

A palpitação secular que ressoa da cavidade torácica do meu peito deve ter algum motivo existencial comum aos outros seres. Nada pode ser tão fugaz e intenso ao mesmo tempo. Nada pode ter uma significância única, e apenas os poetas sejam capazes de explicar isso.

Eu queria poder morrer e viver várias vezes. Cada uma das vidas eu teria uma escolha, e ser sim e ser não a cada vez seria momentos de entrega sem hesitação.

A hesitação é o estado limitante do pensamento sobre o sentimento de ação e verdade. Mas se a verdade não existe realmente, então de que serve o questionamento?

Quem me dera sentir sem pensar, quem me dera nascer sem palavras. Quem me dera não aprender a ler e a distinguir o certo do errado, e poder existir sem força, porque viver já dá trabalho o bastante.

Quando diz-se que queremos sentir a vida palpitante, e sorridente nos lançamos ao ardente fogo da emoção, estamos sendo verdadeiros ou apenas inconseqüentes? Então a verdade não escolhe o quem vem depois e simplesmente decide por você o que vai acontecer? E onde fica o livre arbítrio? Ou isso foi uma invenção católica para que controlemos os nossos sentimentos?

(pausa para reflexão)

Quem encontrar a resposta que escreva primeiro.

domingo, 9 de novembro de 2008

História da paixão inacabada

Encontraram-se à toa, como quem cruza a rua. Ela o viu primeiro. Ele estava absorto em seu furacão de plásticos e pensamentos. Em suas loucas divagações, era comum ser observado – gostava disso. Nestes momentos falava mais alto, aparentando loucura e afastando os mais medrosos. Mas não conseguiu afastá-la: ela interessou-se ainda mais.

Tentava distinguir entre movimentos e resmungos algum sentido naquilo tudo. E a afetação desprovida de qualquer intenção encantou-a. Olhou com intensidade os cabelos e o nariz.

Ele percebeu que ela se aproximava. Era bonita, de fato, e parecia interessada. Tentou conversar, falaram-se afinal. Mas as palavras não disseram nada. Pertenciam a mundos distantes, e encantavam-se, às suas maneiras, com o mistério do outro. Sorriram. E tocaram-se. Descobriram e possuíram, em seus mundos, o deslocamento das fronteiras.

Ela era ligeira, e, com sensualidade abraçava o mundo. Isto lhe trouxe segurança. Embora às vezes aparentasse ser inconseqüente, ela não era realmente. E ele a admirava por isso – ele nunca tinha nada a perder.

Mas os homens fumantes, naturalmente, têm menos fôlego. E voltou à sua busca infinita por sentidos que nunca se prenderia. E ela tornou o seu amor platônico. Desejava muito, e sentia-se manipulada. A tristeza de uma solidão não compartilhada devorou seu amor. Abandonou-se à beira de um abismo por eternos segundos. E em sua queda vertiginosa, abriu os olhos.

E então... desejou desejar menos Sua paixonite cega se tornou míope, e foi capaz de perceber algumas nuances de perto. Ele não era tão crível assim. Tinha manias e medos insuportáveis e provavelmente jamais teria algo no que se segurar na vida. Com algum sofrimento sorriu e percebeu que não seria mais feliz ao lado dele, não mais do que já tinha sido.

Ele, das conversas, nada extraíra e percebeu que a beleza ocultava uma pessoa obsessiva, cheia de opiniões e histórias que jamais condiziria com a forma simples com que justificava sua vida. E sorriu por não ter que pedi-la em casamento. 

Ela mergulhou-se em seu amor próprio e ainda assistiu com algum ressentimento, o mesmo espetáculo do homem, agora para outras. Mas a esfinge estava decifrada, então dispôs-se a conversar com outras pessoas menos previsíveis. E de onde não esperava nada, eis que surge algo realmente mais interessante: da previsibilidade a surpresa aparece! O seu desamado sofre, e empilhando pratos sobre a cabeça não suporta a redefinição de fronteiras que antes havia deslocado. Não podia mijar no seu pé, mas tentou derramar cerveja. Enciumado tentou de todas as formas resgatar o seu espaço, mas era tarde. E ela, secretamente gozou com uma vingança não programada, mas tão doce quanto a o primeiro beijo de uma paixão perturbada. Era ela a mais estruturada, afinal.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Ela.

Nunca se dera conta de sua existência. Simplesmente vivia. Sua inocência fora roubada, e desde então, convivia com a simples e árdua tarefa de dissociar seus sentimentos da ordem prática da vida. Queria ir além, mas aprendera a se limitar. Permitia que se aproximassem, gostava de carinhos, mesmo que eróticos. Mas não admitia se entregar. Amar era demais para si. Não se sentia merecedora de amor. Ou nunca encontrara realmente o significado da palavra.

Não conseguia ir além de seus passos. Mas sua mente alcançava céus e infernos inimaginados. O tempo era relativo, e a sua experiência também. Tinha apenas uns vinte e poucos anos - e, no entanto, o que lhe restava ainda para viver?

Queria paz, mas em tempos de morte e tráfico, esta palavra era proibida. Então: fumava.

E sua fumaça entrelaçava os cachos que moviam seus pensamentos. Certamente tinha uma inteligência inigualável – mas nem mesmo ela admitia isso. Acreditava estar a frente de seu tempo. Mas como, se ainda não aprendera a amar?

Cruzou com um rapaz interessante. Tomou-o para si. Fez de tudo que pode e enlaçou-o entre suas pernas, bem debaixo de suas asas. E construiu sob o ninho um enorme castelo de cartas por cima de sua nuvem de idéias.

Mas ela tinha uma história! E não conseguia deixar de vivê-la. Queria mais, um furacão turbinado moia um motor a sopro dentro do peito. Queria mais, queria sentir-se bem, queria prazer, plenitude. Mas fazia-se em pedaços, e em cada parte de si mesma largava a fúria de uma vida indigesta.

Queria liberdade, mas a liberdade era frouxa demais para alguém que não tinha nada. Tinha medo de morrer, e de gostar. Então, sofria.